
O Boneco de Sal
Era uma vez um boneco de sal que queria descobrir o sentido da vida e da morte. Ele queria realizar sua identidade: ser ele mesmo. Ele queria tornar patente seu vigor latente. E pensou: "Para eu me tornar eu mesmo, tenho que sair de mim, encontrar e medir-me com alguém distinto de mim". E começou a procurar com determinação. Fez até voto de não desistir de caminhar enquanto não encontrasse uma resposta convincente para a pergunta que sempre de novo nascia dentro dele: "Vale a pena viver?"
Dia após dia, o boneco atravessou planícies e planaltos, subiu e desceu montes e colinas, curtiu a dor da solidão e o calor do deserto. Experimentou as crises, carregou as cruzes, provou as surpresas, os perigos, as quedas, avançou e recuou de uma viagem realizada com os pés no chão e o olhar sempre adiante... Um dia, quando menos esperava, o boneco avistou o Mar. Jamais ele tinha visto o Mar. Por isso não o conhecia. Nem podia compreende-lo. No entanto, movido pela necessidade, aberto pela admiração, premido pela angústia diante do desconhecido, perguntou:
- Quem és tu?
- Eu sou o Mar.
- O Mar?... E quem é o Mar?...
- Sou eu!
- Não consigo entender, disse o boneco, mas gostaria muito. O que devo fazer?
- É muito simples, disse o Mar, toca-me!
O boneco se aproximou do Mar e, timidamente, o tocou com a ponta dos pés. Começou a sentir que o Mar se tornava compreensível. Começou a conhecê-lo. Mas ao mesmo tempo deu conta que os seus pés tinham desaparecido...
- É Mar, o que me fizeste?
O Mar respondeu-lhe:
- Tu me deste algo de ti mesmo. Tu te entregaste a Mim!
O boneco então pôs o corpinho na posição justa (firme sem estar rígido), respirou fundo e começou a entrar lentamente, no Mar, como quem está realizando o gesto mais importante, o ato mais decisivo de toda a sua vida. Na medida em que emergia, sentia seu corpo transformar-se, ganhando assim uma forma nova. Na medida em que se entregava ao Mar, percebia em si uma nova alteração. Enquanto tudo isso lhe acontecia, o boneco prosseguia Mar adentro. Abandonava-se a ele. Sem reserva e sem retorno. Fraternizava-se com ele e continuava indagando: "Quem és tu?" Esse contato corpo-a-corpo com o Mar dissolvera quase totalmente a dureza do seu pequeno eu (egoísmo). No entanto, restava ainda a cabeça que é a última a "se entregar". Até que uma onda, sobrevindo de repente, o envolveu por completo. Por inteiro. E agora, emergindo daquele batismo, ressurgiu daquela morte, despojado de si e cheio do Mar, ele próprio pôde responder a partir da sua experiência e com entusiasmo: "O Mar? O Mar sou eu!"
Desde aquela hora o boneco deixou de ser apenas um boneco. Fora convertido pelo Mar num boneco de sal que entendia o Mar. Retomou o caminho de volta para sua terra e sua gente, agraciado com a dádiva do Mar: o sal. E começou a servir os outros bonecos humildemente, comunicando-lhes a alegria daquele encontro com o outro, o prazer daquela entrega ao Maravilhoso. Enquanto caminhava, dizia convicto e contente:
- "Não vivo mais solitário e triste. O Mar vive e ressoa em mim. Faço parte de sua natureza. Nós dois agora somos um! Pois quem me vê, entreve o Mar. E quem me conhece, conhece em mim o Mar!"
(Frei José Edilson Bezerra OFM)
Lorena
" Procura conviver entre pessoas que te
Ensinem a caminhar entre as estrelas;
Porém , quando encontrares a luz,
Não a negues aos que ficaram nas trevas"
(W. A. Petersen)
Era uma vez um boneco de sal que queria descobrir o sentido da vida e da morte. Ele queria realizar sua identidade: ser ele mesmo. Ele queria tornar patente seu vigor latente. E pensou: "Para eu me tornar eu mesmo, tenho que sair de mim, encontrar e medir-me com alguém distinto de mim". E começou a procurar com determinação. Fez até voto de não desistir de caminhar enquanto não encontrasse uma resposta convincente para a pergunta que sempre de novo nascia dentro dele: "Vale a pena viver?"
Dia após dia, o boneco atravessou planícies e planaltos, subiu e desceu montes e colinas, curtiu a dor da solidão e o calor do deserto. Experimentou as crises, carregou as cruzes, provou as surpresas, os perigos, as quedas, avançou e recuou de uma viagem realizada com os pés no chão e o olhar sempre adiante... Um dia, quando menos esperava, o boneco avistou o Mar. Jamais ele tinha visto o Mar. Por isso não o conhecia. Nem podia compreende-lo. No entanto, movido pela necessidade, aberto pela admiração, premido pela angústia diante do desconhecido, perguntou:
- Quem és tu?
- Eu sou o Mar.
- O Mar?... E quem é o Mar?...
- Sou eu!
- Não consigo entender, disse o boneco, mas gostaria muito. O que devo fazer?
- É muito simples, disse o Mar, toca-me!
O boneco se aproximou do Mar e, timidamente, o tocou com a ponta dos pés. Começou a sentir que o Mar se tornava compreensível. Começou a conhecê-lo. Mas ao mesmo tempo deu conta que os seus pés tinham desaparecido...
- É Mar, o que me fizeste?
O Mar respondeu-lhe:
- Tu me deste algo de ti mesmo. Tu te entregaste a Mim!
O boneco então pôs o corpinho na posição justa (firme sem estar rígido), respirou fundo e começou a entrar lentamente, no Mar, como quem está realizando o gesto mais importante, o ato mais decisivo de toda a sua vida. Na medida em que emergia, sentia seu corpo transformar-se, ganhando assim uma forma nova. Na medida em que se entregava ao Mar, percebia em si uma nova alteração. Enquanto tudo isso lhe acontecia, o boneco prosseguia Mar adentro. Abandonava-se a ele. Sem reserva e sem retorno. Fraternizava-se com ele e continuava indagando: "Quem és tu?" Esse contato corpo-a-corpo com o Mar dissolvera quase totalmente a dureza do seu pequeno eu (egoísmo). No entanto, restava ainda a cabeça que é a última a "se entregar". Até que uma onda, sobrevindo de repente, o envolveu por completo. Por inteiro. E agora, emergindo daquele batismo, ressurgiu daquela morte, despojado de si e cheio do Mar, ele próprio pôde responder a partir da sua experiência e com entusiasmo: "O Mar? O Mar sou eu!"
Desde aquela hora o boneco deixou de ser apenas um boneco. Fora convertido pelo Mar num boneco de sal que entendia o Mar. Retomou o caminho de volta para sua terra e sua gente, agraciado com a dádiva do Mar: o sal. E começou a servir os outros bonecos humildemente, comunicando-lhes a alegria daquele encontro com o outro, o prazer daquela entrega ao Maravilhoso. Enquanto caminhava, dizia convicto e contente:
- "Não vivo mais solitário e triste. O Mar vive e ressoa em mim. Faço parte de sua natureza. Nós dois agora somos um! Pois quem me vê, entreve o Mar. E quem me conhece, conhece em mim o Mar!"
(Frei José Edilson Bezerra OFM)
Lorena
" Procura conviver entre pessoas que te
Ensinem a caminhar entre as estrelas;
Porém , quando encontrares a luz,
Não a negues aos que ficaram nas trevas"
(W. A. Petersen)
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