
Música e religião
Afinal, haverá uma música religiosa?
E em caso afirmativo, como será a música religiosa e quais os instrumentos mais dignos de serem utilizados nos cultos?
Música nos cultos
Desde os tempos mais remotos que a música e muitas vezes a dança está relacionada com quase todas as religiões. Também era assim no Velho Testamento e assim continuou após a chegada e os ensinos de Jesus, o Cristo, o “Logos”, o único que é a Palavra de Deus. Comecemos por examinar algumas diferenças entre a música utilizada no Velho Testamento e a música que encontramos no Novo Testamento.
No Velho Testamento
Encontramos já em Êxodo 15:1 uma referência ao canto que Moisés e os filhos de Israel entoaram ao Senhor. A descrição bíblica não nos diz como foi esse canto, se havia instrumentos, ou se foi acompanhado de danças, mas o contexto deste versículo, leva-nos a pensar que terá sido um cântico verdadeiramente espontâneo, que ninguém programou, nem ensaiou nem teve tempo de preparar os instrumentos. Mas, mais adiante, em Êxodo 15:20/21, temos a descrição da reação de Miriam que pegou no tamboril e dançou, assim como todas as mulheres com tamboris e com danças. O versículo 21 confirma que cantavam ao Senhor. Noutras traduções aparece a palavra Maria, em vez de Miriam. Duas traduções possíveis, pois as duas palavras derivam da que está nas cópias dos manuscritos. Em lugar de tamboril nalgumas traduções está tamborim, ou adufe, pois todas estas palavras designam o mesmo instrumento que apresentamos na seguinte foto.
Ao ler estas passagens, não posso deixar de pensar. Afinal, o tamboril ou adufe é instrumento popular muito utilizado no norte de Portugal. Porque não o utilizamos nas nossas igrejas evangélicas ou católicas? Certamente por uma questão de fidelidade a uma tradição que nada tem de bíblica, pois esse é um dos mais antigos instrumentos musicais que a Bíblia menciona.
Os reis de Israel tinham músicos profissionais nas suas cortes, como vemos em II Samuel 19:35 o que não impedia que, em certas ocasiões, houvesse colaboração de músicos do povo, como em I Reis 1:39/40. Muitos dos Salmos que chegaram aos nossos dias, eram as letras das músicas utilizadas no louvor do Senhor.
As nossas traduções da Bíblia referem-se às flautas e às harpas dos pastores, inclusive de David. I Samuel 16:16, I Samuel 18:10 e I Reis 10:12. Compreende-se perfeitamente que um pastor toque flauta, pois esse instrumento era semelhante às flautas bisel ou transversal dos nossos dias, mas penso que esta tradução por harpa não foi muito feliz, pois nos nossos dias a harpa é um instrumento grande e muito pesado. Tratava-se dum cordiforme que não tem equivalência aos instrumentos dos nossos dias, um instrumento de cordas, portátil, para ser beliscado e podia-se tocar, mesmo enquanto se caminhava. Era o ideal para um pastor que caminhava ao lado do seu rebanho.
Apesar das dificuldades duma correta tradução que geralmente não é possível, os instrumentos utilizados na antiguidade, não eram muito diferentes dos que temos nos nossos dias. Havia instrumentos de cordas de tripa, para serem beliscados, instrumentos de sopro, como a flauta, os cornos (chifres), a buzina, as trombetas e cornetas, e instrumentos de percussão, como o adufe ou pandeiro que era o mais utilizado. Só não havia instrumentos eletrônicos nessa época, nem as cordas de aço que nos nossos dias estão a substituir as cordas de tripa.
Foi o Rei David quem introduziu todos os instrumentos no culto, com o apoio técnico de Asafe, Hemã e Jedutum, que podemos considerar como os grandes maestros do seu tempo. Tratava-se dum grande número de músicos profissionais com uma rígida hierarquia, segundo podemos ler em I Crónicas 25:1/31. Mas Salomão foi quem deu o maior desenvolvimento, colocando os instrumentos ao serviço do Templo e contratando os melhores músicos e cantores.
Segundo nos informa o teólogo e investigador Joaquim Jeremias, no seu livro “Jerusalém no tempo de Jesus”, cantor ou músico, no Velho Testamento, era uma profissão bem definida. Vamos transcrever uma passagem do citado livro.
Os cantores e músicos constituíam a classe superior dos levitas; somente para eles era exigida a prova de uma origem sem mácula, quando desejavam ser nomeados para o posto. Tinham por função o acompanhamento musical do culto diário, cantando e tocando instrumentos, pela manhã e à tarde e por ocasião de festas particulares.
No serviço quotidiano, o chefe do coro dos levitas e os levitas músicos e cantores, assim como dois a doze tocadores de flauta na Páscoa e na Festa das Tendas, colocavam-se sobre um estrado que formava a separação entre o átrio dos sacerdotes e o dos israelitas; achava-se um côvado acima do átrio dos israelitas, e um côvado e meio abaixo do átrio dos sacerdotes. Durante as alegres cerimônias noturnas que faziam parte da festa das Tendas, um considerável coro de levitas cantava, de pé, nos quinze degraus que levavam do átrio das mulheres ao dos israelitas. Jamais porém, os levitas músicos ocupavam lugar no átrio do sacerdotes exclusivamente para eles reservado; apenas podiam, como qualquer leigo, entrar nesse átrio dos sacerdotes para oferecer um sacrifício.
No Novo Testamento
Parece à primeira vista, depois duma busca informática, ou através da chave bíblica, que são poucas as referências à música no Novo Testamento, o que não significa que não houvesse música, cuja utilização fosse tão natural, que ninguém se lembrasse de a registar, até porque não era essa a intenção dos escritores neotestamentários.
Há no entanto, várias passagens em que a música está subentendida, como Lucas 1:46/55, Lucas 1:68/79 e Lucas 2:29/32. No entanto, só Lucas registou estes acontecimentos, numa época em que ainda não havia cristãos e o ambiente era nitidamente veterotestamentário.
No entanto, começando por João Batista, não nos parece que nesse ambiente de austeridade, houvesse lugar para a música, tal como hoje a entendemos.
Um dos motivos da aparente, pouca de referência à música no Novo Testamento, é a palavra “Aineo” que aparece em quase todas estas passagens e significava, louvor a Deus com alegria, o que normalmente incluía cânticos, sem que seja uma clara referência à música e muitas vezes foi traduzida por louvor. (Claro que a música religiosa é louvor a Deus, mas é uma entre muitas outras formas de louvor, como a oração, a vida santificada, etc.)
Vemos isso em Lucas 18:43, Lucas 19:37, Actos 2:47, Actos 4:21, Efésios 1:12, Efésios 5:19, Filipenses 1:11, Colossenses 3:16.
Não encontramos nestas passagens, qualquer referência a instrumentos musicais, embora não esteja excluída a possibilidade da sua utilização, mas pelo contexto das passagens, era certamente a voz humana o principal instrumento, e o fundamento de todos os cânticos o tal “Aineo” o alegre louvor a Deus.
Música nos cultos cristãos dos nossos dias
Penso que o contexto cultural em que vivemos, tem (ou deveria ter), uma grande influência na música religiosa.
O crescimento do cristianismo duma maneira geral, fora da Europa, onde teve o seu maior desenvolvimento, tem sido de certa maneira prejudicado, por uma certa fidelidade das igrejas a determinados tipos de tradição musical religiosa que pouco diz às várias culturas dos nossos dias no mundo em que vivemos. Refiro-me concretamente ao Oriente, África e América Latina, onde vive a maior parte da população do nosso planeta.
Nada tenho contra a cultura ocidental, mas prefiro a música religiosa do protestantismo tradicional, com os grandes corais a várias vozes. Também aprecio a música barroca e sinto-me culturalmente mais identificado com os corais católicos do que com a barulhenta “gospel music” de determinadas igrejas evangélicas. Talvez, muitos que me conhecem se vão admirar por ter utilizado a expressão em inglês “gospel music”, pois sou abertamente contra os estrangeirismos na nossa língua. Mas neste caso, quando escrevo “gospel music” refiro-me a determinada música evangélica americanizada, pelo seu ritmo e pelos instrumentos utilizados, embora possa ter letra em português. Isso não considero música evangélica, mas sim “gospel music”, muito semelhante à que encontramos nas discotecas.
Já alguns teólogos têm defendido a fidelidade às tradições religiosas e à utilização exclusiva nos cultos, duma música com determinadas características a que chamam de “música religiosa” ou “música sacra”. Mas a grande dificuldade está em definir que música é essa e qual o objecto dessa fidelidade.
Para determinadas igrejas, de certa maneira condicionadas por alguma forte personalidade do passado, como os luteranos, poderia ser a música da época de Lutero, ou para os adventistas, poderia ser o ambiente cultural de Ellen White. Mas se procurarmos basear a fidelidade da nossa música em Cristo, não há informação sobre o tipo de música para o culto cristão. Os textos bíblicos muitas vezes apresentados para defender uma certa ortodoxia musical, como II Coríntios 6:17 e I João 2:15/17, nada têm a ver com a música. São argumentos que só funcionam quando apresentados do alto do púlpito, e cedo se desfasem quando houver séria reflexão e debate teológico.
Há quem defenda que a música em si é neutra, nunca é boa ou má. Mas se música é, como alguns a definem, “a arte de transmitir pensamentos e sentimentos por meio da combinação dos sons”, então é natural que esses sons estejam relacionados com determinados pensamentos. Por exemplo a “1812 de Tchaikovsky” não necessita de palavras para transmitir a idéia de violência. O som dos canhões é uma nítida referência à guerra.
O Dr. H. Lickey levanta e pertinente questão: “Se um jovem passa a noite de sábado na discoteca, ao som da música rock, que acabou por identificar com esse local, se no dia seguinte ouvir música semelhante numa igreja, não será pressionado pelos mesmos pensamentos do dia anterior, mesmo que a letra da música tenha sido alterada?”
Afirma ainda o mesmo teólogo que “O cristão deve possuir uma sensibilidade altamente desenvolvida para distinguir entre o que é comum e o que é sagrado”. Parece-me que esta afirmação é em parte uma confirmação da dificuldade em encontrar normas claras do que é a “música religiosa” ou “música sacra” e como a diferenciar da “música profana”.
Mas, se o próprio mundo ocidental, não consegue definir com clareza o que seja a música religiosa, o problema é bem mais difícil em África ou no Oriente. No Brasil, talvez não se note tanto o problema, por ser um país muito “permeável” a outras culturas. Embora o Protestantismo brasileiro tenha crescido muito em número, a maioria das igrejas evangélicas brasileiras continua sendo uma cópia do que se faz e se pensa na América. Pelo que vi no Brasil, penso que poucas são as igrejas que atingiram a sua maturidade cultural. Não me lembro de ver os evangélicos brasileiros louvando ao Senhor com instrumentos da cultura brasileira.
Pelo que tenho observado, quer na Índia, quer em Moçambique, as igrejas mais solidamente implantadas, são as que conseguiram melhor integração cultural e que mais cedo se conseguiram libertar dos seus missionários. Bem sei que esta afirmação, assim um tanto isolada, pode ser um tanto escandalosa, mas aconselho a ler os meus artigos “Missionários”, “Missões evangélicas” e “Evangelho e Cultura”.
A música faz parte da cultura do missionário e este geralmente a tenta implantar nas novas igrejas, ignorando ou desprezando as culturas dos outros povos, pois tenta a todo o custo manter a sua fidelidade à sua igreja mãe e fundar no seu campo missionário uma igreja tipo fotocópia da sua igreja mãe.